O design está em tudo: nas casas, nas ruas, no jeito que a gente interage com o mundo e até na maneira como a gente se expressa. E é por isso mesmo que, mais do que estética e funcionalidade, ele tem também uma função social e política. Historicamente, a influência de mulheres, tanto no design quanto em outras áreas, foi apagada. Para resgatar essas histórias, a gente decidiu trazer uma série sobre Mulheres no Design, mostrando o impacto e a originalidade de grandes criadoras.
Hoje, o destaque vai para Clara Porset, uma designer que conseguiu unir a tradição artesanal à modernidade. Você pode até não reconhecer o nome de imediato, mas se gosta de design que tem cultura, identidade e propósito, com certeza já viu a influência dela por aí.



Clara nasceu em 1895, em Matanzas, Cuba, numa família privilegiada, o que lhe deu acesso à educação no exterior, algo incomum para a maioria das mulheres da época. Ela estudou arquitetura e design nos Estados Unidos, passou pela Escola de Belas Artes de Paris e, nos anos 30, chegou a Bauhaus, na Alemanha, um dos maiores centros de inovação do design moderno.
Foi no México, com seu ambiente cultural efervescente, que encontrou o cenário perfeito para desenvolver seu trabalho. Sua grande sacada foi criar peças que combinavam funcionalidade e identidade cultural. Inspirada pela arte popular e pelos materiais locais, ela desenvolveu móveis que honravam técnicas artesanais tradicionais e indígenas, mas que também dialogavam com o design moderno.
Suas cadeiras de vime com estrutura metálica são um exemplo claro desse equilíbrio. Elas trazem a leveza dos trançados tradicionais, mas com uma base resistente e de estética contemporânea. Esse tipo de abordagem fez com que Porset fosse reconhecida por integrar o design industrial às tradições locais.
As criações eram cheias de referências históricas: cadeiras inspiradas em móveis pré-colombianos, uso de materiais locais como vime, palha e couro, além de estruturas ergonômicas que se adaptavam ao corpo.
A Poltrona Butaque é um dos seus designs mais marcantes – uma reinterpretação moderna de um assento usado pelos maias e astecas. Hoje, ela continua sendo uma peça cultuada no design de interiores.
Seu marido, o pintor e muralista Xavier Guerrero, foi seu parceiro em diversos trabalhos. Juntos, exploraram as interseções entre arte, design e identidade latino-americana.



Se hoje falamos de design sustentável e acessível, Clara já fazia isso há quase um século. Ela acreditava que móveis não deviam ser só esteticamente bonitos, mas também funcionais e enraizados na cultura do lugar.
Seu objetivo não era apenas criar peças de destaque. Ela queria que seus móveis chegassem às pessoas comuns. Diferente da visão elitista do design da época, ela se dedicou a projetos que buscavam democratizar o acesso a produtos de qualidade.
Um de seus trabalhos mais notáveis foi o projeto de mobiliário para as habitações populares idealizadas pelo arquiteto Mario Pani no México. A sua missão era criar peças que atendessem às necessidades das famílias, mantendo a qualidade estética e a funcionalidade, provando que o design pode (e deve) ir além da elite.
Porset teve uma relação conturbada com seu país natal. Com o golpe de Batista em 1952, Cuba tornou-se um ambiente hostil para ela, o que minou qualquer possibilidade de retorno. Durante esse período, seguiu no México, desenvolvendo projetos e se aprofundando no estudo do design e seu contexto social.
Após a Revolução Cubana, em 1959, foi convidada por Fidel Castro para retornar e ajudar na estruturação do design no país. No entanto, sua visão não estava totalmente alinhada às diretrizes do governo, e a relação não se manteve por muito tempo. Ela acabou voltando ao México, onde continuou ensinando e produzindo até o fim da vida.



Além de designer, Clara também foi professora e pesquisadora. Ela ajudou a fundar o primeiro curso de Design Industrial da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), onde formou uma geração de novos designers.
Porset defendia que o design deveria ser tratado como uma disciplina séria e essencial, não apenas uma extensão da arte ou da arquitetura. Os conceitos de sua abordagem, função, cultura e acessibilidade, guiam muitos designers contemporâneos até hoje.
Mesmo com sua importância, Clara Porset não teve o mesmo reconhecimento que muitos de seus colegas homens. Ainda assim, sua influência no design latino-americano é inegável. Em 1971, recebeu a Medalha de Ouro do Instituto Nacional de Belas Artes do México, e em 1988 foi criado o Prêmio Clara Porset, que incentiva designers mulheres a valorizarem o design indígena e acessível.
Seus móveis ainda são referência no design, sendo apreciados tanto por colecionadores quanto por quem busca peças que contem histórias. Seu legado continua vivo e mostra que o design não é apenas uma expressão estética, mas um agente de transformação social, carregado de identidade e propósito.



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